13.6.12

Santos

É possível descrever sociologicamente a noite de Santo António em Lisboa numa perspectiva de geo-referenciação. E pronto, podia acabar por aqui o post. Já utilizei palavras de quem percebe muito do assunto. E vocês ficavam desse lado a pensar que aquela frase queria dizer tudo e eu escusava de avançar com a explicação. Mas vou arriscar.

Os alfacinhas, genuinamente alfacinhas, aqueles que residem de facto em bairros de Lisboa, há muito que deixaram de olhar para esta noite como a oportunidade do festão do ano. Organizam-se de outras formas. Alguns preferem antes piscar o olho às oportunidades de negócio. Outros descem as escadas do prédio, andam uns minutos e circulam nos bairros do costume a ver se encontram o pessoal do costume. Bebem uma imperial, põem a conversa em dia. Vão perguntando se já se sabe quem ganhou as marchas. Ainda não, bebe-se mais uma e retoma-se a conversa.

E depois há os outros. Os que vêm dos subúrbios de Lisboa e aterram nesta noite como quem olha uma cidade pela primeira vez. Vão perguntando, enquanto estão na Graça, se o Alto de São João fica muito longe. Ou explicam aos berros ao telefone que estão "junto ao São Jorge" referindo-se ao Castelo e não ao cinema. E que miradouro é este perguntam. É Santa Luzia, respondo. E voltam ao telefone para dizer "pá ao pé do São Luzia". Passam na Sé e dizem que estão "junto à igreja".

Recentemente, a moda entre os suburbanos é o bairro da Bica. Não é difícil a explicação. É o que conhecem de Lisboa. O eixo Bica/Bairro Alto que o resto é ponto de passagem casa-trabalho. Ficam ali a noite toda. Parados no mesmo sítio. De vez em quando tentam vestir a pele de alfacinhas e gritam "yé yé yé a Bica é que é" não fazendo ideia o que representa para quem está no marcha o seu sentimento bairrista e aquele grito em particular. Que enquanto para alguns as marchas são colocar a mão na anca e descer uma avenida para outros são uma convicção profunda. Com meses de preparação. E ansiedade e coração aos pulos.

Ao fim da noite pegam nos seus carros - de que outra forma chegariam à cidade? - estacionados de forma caótica onde calha. Voltam para o Cacém ou o Barreiro bêbedos que nem um cacho. A pensar que gira era aquela com quem dancei o pai da criança. É a recordação que levam de Lisboa. Naquela noite de Santo António. Quinta-feira é dia de trabalho. 09h-18h em Lisboa e ufa que já está na hora de voltar para o IC19. A ver se hoje apanho menos trânsito.

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